Você já reparou como muitos artistas só ganham o status de “gênio incompreendido” depois que morrem? Em Dead Women, a cantora nipo-americana Mitski pega esse clichê pelo braço e o leva para um passeio sombrio, cheio de ironia. A letra imagina um narrador (talvez a própria indústria, talvez fãs macabros) que só valoriza a artista caso ela vire mártir. O resultado é um retrato ácido de como a cultura pop lucra com tragédias pessoais: vasculhar diários, leiloar objetos e reinventar a história para caber num roteiro mais lucrativo.
É como se Mitski dissesse: “Se eu morresse, vocês me transformariam em mito; viva, preciso me defender de vocês”. Por isso aparecem imagens chocantes, como costurar pedras num vestido e afundar num lago ou levar 27 facadas enquanto ladrões escolhem o que exibir no velório. Tudo é exagerado de propósito para denunciar a fetichização da dor feminina e a violência que muitas vezes se esconde atrás de declarações de admiração. O contraste entre o refrão suave (“do-do-do...”) e os versos cruéis deixa a mensagem ainda mais marcante, lembrando que a arte também pode ser uma arma contra quem só quer consumir sofrimento alheio.